sexta-feira, 2 de março de 2012

O rio e o criador de pontes

Já não sabes o nome de todas as pontes que tocaste, tudo em ti é rio, o mesmo. Pequeno mas rebelde, no tempo das águas que cantam. Cai, depois, todo ele é queda e som. Mergulha entre as pedras, rasga vales, revela raizes - que recolhes reverentemente - estranhas, alquímicas, magoadas. Repousa então, o teu rio nas tuas margens, o teu leito maculado por um caudal-vórtice insubmisso. Não irá desaguar.

Sobre ele, o íncubo, o criador de pontes. O que ergue paisagens sobre tudo o que é rio em ti. Tem a corda, tem a árvore, tem laços e magia. Alquimista. E cada ponte que voa sobre ti recorda-te apenas que não deves saber o seu nome. Estão lá para as tocares. Molhares. Desaguar.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Ao A.O.

Gosto do português açúcarado, gosto. Gosto daquele sotaque delicioso, travo a Bahia alaranjada-lima em pé de pai-de-santo e Yemanjás sem vírgulas porque gosto também de Saramago. E Pilar. E amo Lispector, noiva prometida de tempos em que trocava o subtil por um sutil encontro com ela. Sem tato nenhum tacteava por Meireles, única Cecilia numa vida. Não era Amado, não. Sonhava então abruptamente com a queda abruta de um « p » onde PI é uma imperfeição. Finalmente. Mas gosto. Gosto do Brasil. De paixão. De tesão. E gosto de Portugal. Sôfrego e dedilhado. Leio as cartas que Clarice escreveu para mim, muito antes de eu ter nascido, e só as compreendo se tiverem aquele inebriante sotaque além-Atlântico. Tão dela. Ela lerá as minhas respostas, que nunca lhe enviei e só as compreenderá neste meu português. Tão meu.

Ela escreve Brasil, eu escrevo Portugal e temos um imenso português a derrubar a lei do tempo. Une-nos.
Ela não admite que eu fale de um PI imperfeito. Eu nunca admitirei que chamem putas às nossas raparigas.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O Ideal

Assim, prostrada, nem sei que animal és. Olhando-te com curiosidade vejo apenas algo inquieto, contorcendo-se. Escorre-te a saliva, os teus olhos estão diferentes, a tua mão esconde-se entre as coxas e murmuras algo indecifrável, numa linguagem antiga talvez, talvez na primeira linguagem, talvez na única. Nos teus gestos vejo urgência. E tudo é perigo e tudo é perigo. Compreendo agora a urgência, pedes-me que vá. Não pedes, ordenas: Vem! Vem! Eu gosto do perigo. E nem sei que animal és assim prostrada. Nesse caso, neste caso, terei que te reinventar. Os teus olhos estão diferentes. Logo, os meus, terão que brilhar um pouco mais. Sei que não é um ideal perfeito, mas tentarei reinventar-te baseando-me na perfeição do teu ideal. Serás então um animal que tenho urgentemente que extinguir. Eu gosto do perigo. E sou esquivo. Felino. Salto então sobre ti, prendo-te. Prendo-te a atenção também. Pareces assustada, agora... assim, assustada, nem sei que animal sou. Da atenção à tensão de segundos de impaciência. Retiro-te brutalmente as mãos já liquefeitas, já não se escondem entre as coxas. Prendo-te as mãos com as minhas, trémulas. Os teus olhos estão diferentes e brilham agora como os meus. E o perigo envolve-nos e derrota a minha humanidade. Não, nem sei em que animal me transformei. Sei que tenho que te extinguir urgentemente. Dou uma estocada no animal assustado que és. E outra. Outra. Inúmeras. Falo agora na tua linguagem, uma linguagem antiga e primitiva, talvez a única, talvez a única. Reinvento-me em ti, sou o perigo em ti, sou eu o animal que tem que ser extinto. Urgentemente. Os teus olhos estão diferentes e brilham agora como os meus. Plenos de malícia. Sei que estou agora derrotado, inerte e indefeso. Os teus olhos recordam-me isso. Ainda tremo em ti, mas já não sinto perigo. Extinto o animal, vejo apenas uma nave a alunar. Calma. Precisa. Numa linguagem antiga, talvez na única linguagem, dizes algo incompreensível. Falas de amor, parece-me. Nem eu sei como me reinventei no teu Ideal.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

1 de Fevereiro na memória dos que choram

Tinham o estranho hábito de se reunir no Gelo, cuspindo raiva e loucura bombista entre grogues de bagaço e pólvora. Olhares ferozes, linguagem rude, gestos ocos e palavras vãs, olhares ferozes e furtivos de animais desconfiados, de bestas enfiadas em sobretudos de cobardia, sobre tudo e toda a infâmia. Grogues de bagaço e petardos de pólvora depois, seria fácil descer ao terreiro e disparar. Disparar balas sobre uma família. Atirar grogues de pólvora a um pai. Ao filho. Caído já no colo de sua mãe. De sua esposa. A turbe incrédula, chorando. Gritando. Confusão. Há quem diga que um grito gutural ecoou então no terreiro da desgraça: mataram o Rei. Há quem jure que só entre soluços de orfandade conseguiram terminar: viva o rei. Nunca se disse viva Portugal.
Não foram dois homens que ali, naquele dia, foram assassinados. Não foi um pai e um filho que as bestas tombaram. Esses cães, naquele dia, mataram Portugal.

Nuno M. F. in Ypsilon

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A última noite

Eles sabem que é a última noite e deixam a janela aberta. Não há vento. Nem um sopro. Não há tempo. A perder. Não sentem frio. Nem um pouco. Nem há cortinas. Não há nada a esconder. Gostam dos limites, os loucos. Amam o cheiro a sexo daquele quarto. Estão agora em ponto morto, olhando por uma janela aberta o horizonte, que é uma promessa e uma canção abandonada. Não sentem frio, nem um pouco. Eles sabem que é a ultima noite e não se escondem de nada. Vagueiam um pelo outro tacteando sombras e esconderijos, e porque gostam dos limites atrevem-se a sorrir um para o outro. Os loucos. Estão conscientes que despertaram algo há muito escondido, refugiado entre sombras e esconderijos. E nasce uma cortina. E sente-se um sopro. E entra o vento. E tremem agora. E porque gostam de extremos continuam a sorrir, eternos um para o outro. Eternos, um pelo outro. E são já rajadas que fecham a janela com estrondo. Não há tempo... perderam-se. Continuarão malditos um para o outro, um pelo outro, porque a última noite foi a primeira promessa de mais noites e canções abandonadas.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Sessenta minutos

Um dois são passos apressados. Três quatro é a porta que se abre. Cinco seis segundos intermináveis. Sete oito fechas a porta com estrondo. Nove dez e um quarto da manhã. São onze doze suspiros impacientes. Treze quatorze voam os sapatos. Quinze dezasseis suspiros incontidos. Dezassete dezoito cai o pano deslizando pelas tuas pernas. Dezanove vinte pancadas de Moliére. Vinte e uma e vinte e duas gotas de suor a escorrer. São vinte e três ou vinte e quatro os gemidos que te arranco. Contei vinte e cinco ou vinte seis marcas de unhas ferozes. Por vinte e sete vezes sussurraste « amo-te ». Em vinte e oito movimentos entre as tuas coxas arquejei « eu também ». Vinte e nove trinta não te atrevas a parar. Trinta e uma que és tu trinta e dois que somos nós não nos atrevemos a parar. Trinta e três trinta e quatro e um quarto a arder. Trinta e cinco trinta e seis podes parar de gemer. Grita agora entre os trinta e sete ou trinta e oito espasmos. Por trinta e nove vezes receei morrer de tanto êxtase. Por quarenta vezes desejei morrer assim. São quarenta e uma gotas de chuva que deslizam naquela janela. Quarenta e duas elevações do teu peito ainda sôfrega e meia adormecida. Quarenta e três ou quarenta e quatro - não recordo bem - carícias no teu cabelo. Quarenta e quatro quarenta e cinco sorrisos partilhados. Abraça-me agora, esmaga-me contra ti, entre quarenta e seis ou quarenta e sete lágrimas de pensamentos felizes. Por quarenta e oito vezes parei o tempo contigo nos braços. Quarenta e nove vezes pediste ao tempo para se retirar. Cinquenta os sulcos no teu sexo que trilhei. Cinquenta e um perímetros marcados. Cinquenta e duas gotas de Vida que te escorrem pelas coxas. Já são cinquenta e três gotas de chuva naquela janela. Foram cinquenta e quatro ou cinquenta e cinco vezes que me amaste com o teu olhar? Sei que foram exactamente cinquenta e seis olhares de incontida ternura que te devolvi. Cinquenta e sete ou cinquenta e oito vezes que tentas adormecer. Adormeço-te ao cinquagésimo nono tremor. Sessenta minutos, meu amor. Enquanto dormes ligo a televisão... há horas felizes, anunciam. Desligo. Adormeço para te invadir os sonhos. Quero estar sempre contigo.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Dos lugares malditos: Numenor

É aqui, aqui. Entre o feitiço e o teu quarto, quarto crescente de uma lua nova que tenta as marés e os viajantes. É aqui, meu amor, está agora completa esta história de gigantes. Nada, nada mais importa. Nada, nada mais existe. Porque Numenor é, afinal, o teu lugar. Aqui chegaste, a voar, ágil e leve... tinhas que te tornar leve, divinamente leve. Em lugares malditos procuraste o homem, que se fez menino para te encontrar. É aqui, aqui, entre o feitiço e o teu quartzo, magnésio de bússola errante, estranho quadrante que te dei, poção tão terna, lugar maldito, porção de terra entre vales de sonhos e lençois marcados, vencidos por dois corpos ágeis e selvagens cuja derradeira gota de suor será para lembrar que se disse amor.

Porque Numenor nunca foi o Homem. Foi sempre o teu lugar. O menino nú espera-te, pequeno pássaro.. anda. Podes entrar.