sexta-feira, 2 de março de 2012

O rio e o criador de pontes

Já não sabes o nome de todas as pontes que tocaste, tudo em ti é rio, o mesmo. Pequeno mas rebelde, no tempo das águas que cantam. Cai, depois, todo ele é queda e som. Mergulha entre as pedras, rasga vales, revela raizes - que recolhes reverentemente - estranhas, alquímicas, magoadas. Repousa então, o teu rio nas tuas margens, o teu leito maculado por um caudal-vórtice insubmisso. Não irá desaguar.

Sobre ele, o íncubo, o criador de pontes. O que ergue paisagens sobre tudo o que é rio em ti. Tem a corda, tem a árvore, tem laços e magia. Alquimista. E cada ponte que voa sobre ti recorda-te apenas que não deves saber o seu nome. Estão lá para as tocares. Molhares. Desaguar.

14 comentários:

  1. Quite right, Mister. Quem anda à chuva molha-se, o criador de pontes que é um incubo molha-nos, mas só desagua quem quer. Eu sou mais leito entre duas margens bem abertas. O criador pode atirar-se lá do alto, de mais uma ponte. De cabeça. Pimba, golo! Quite right my Fallen Angel. Duas margens bem abertas num leito. Ou não me chamasse eu Espalha-Brasas. Ai City pego. ai ai.

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    1. Quase que tinhas um comentário extraordinariamente decente. Mas tinhas que meter brejeirice pelo meio. City pego, bem no meio.

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  2. Númen,

    http://www.youtube.com/watch?v=c-q7Mih69KE

    (que saudades de te ler!)

    http://heavenlypostcards.blogspot.com/2012/02/i-draw-card-you-sign-post.html

    (penso que irás gostar)

    Mil beijos (e mais um)

    :)

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    1. Mas eu já li, Starfusion. :-) Apenas não comentei. Leio sempre...

      Sabes que há leituras que impelem à criação. E também sabes que dou sempre um « toque » meu, quando comento. O que é belo, obviamente. Como parece ter voltado à blogosfera o estranho fenómeno da assumpção de que os monitores têm alma própria, e se tocam entre si, e que se comentam é porque pensam que o texto lhes é destinado, desisti de comentar o que merece mais que um comentário. Não sou capaz dos « lindo» « fantástico para variar ». Prefiro não ter mesmo palavras do que escrever « sem palavras ». E assim, não há estupidez virtual a disvirtuar o belo.

      Beijos, My Star, e mais um num tapete.

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    2. Sei, sim. Não é a primeira vez que me inspirei por algo que escreveste. Bom ler-te aqui de novo. Embora perceba pelo teu silêncio que te estás a viver, e isso é maravilhoso. Mas fazes muita falta (in & out).

      Beijo (alquímico)

      :)

      P.S. Obrigada por teres "estado".

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    3. Wrong & wrong, mon coeur. Vivo sempre. Sempre vivi aqui. E aqui. E não me silencio, como sabes. E estou, sempre estarei. Beijo ( da forja da pedra filosofal ).

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  3. Tenho tanto medo de ti...dessa tua doçura áspera, desses teus sussurros, que me puxam o cabelo, quando entram nos meus olhos...intimidas-me...as tuas mãos são francas e tentadoras...mas, as tuas garras, sempre de fora, extensões inseparáveis da tua personalidade, nesse eterno cerco em que vives, podem retalhar-me á mais leve carícia que me faças...E esse medo, e essa mansidão poderosa com que chegas, essa tua dimensão que enche tudo ao avançares para mim, esse porte de árvore gigante, infinitamente ramificada, inabalável, mais me submete á vontade de ti...de ser um bichinho que se enconde em ti, na pele que suavizas para roçar na minha...
    *

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    1. ( A ti respondo-te. Tornando físico tudo o que escrevo. Bichinho ) *

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  4. Sempre intenso, de palavras quase disfarçadas, mas que dizem tudo para os que sabem olhar no fundo dos rios, nos reflexos das sombras...





    Deixo um beijo de bom fds e também de boa semana

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    1. Moi e tu sabes olhar. Tens um olhar sereno. Límpido. Gosto. Boas semanas. Beijos.

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  5. Resta a nódoa, um pequeno veio rosado,
    no lençol, berra num branco imaculado
    como outrora, um vermelho culpado;
    que eu ainda consigo ver,
    porque me lembro como era;
    que eu ainda consigo cheirar,
    porque me lembro como cheira;
    que tu nunca mais irás tocar,
    eu fiz do sulco uma fronteira;
    E não, é verdade que não foste o primeiro,
    talvez nem o segundo, ou sequer o terceiro;
    mas, apenas tu, me desfloraste,
    profano! Uma Messalina na ara,
    como uma virgem que tu sangraste,
    num lençol...
    Resta a nódoa
    Que eu ainda consigo ver…
    *

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    1. Meiga, a palavra nódoa destoa no belo. Mas tudo é contraste, tudo é perfeito. Destoando, destoando.. por aí. :-) *

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  6. rios pontes iste já é mania...a ponte é estrutura do acaso coisa provisória na coysa perdurável qui é um rio....

    excepto quando não chove ...mas há tejo há dezenas de milhões de anos e pontes nem há uma com 5000 que lhe passe por cima

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    1. Muito bem escrito, irmão. Clarividência extraordinária, perfeito na engenharia de ponta e pontes, bem aplicada e explorada a questão da imortalidade unindo os milhões do rio aos míseros milhares da (luso)ponte. Muito, muito bem. Abençoada internet que engorda a cultura e a ciência do bom comentário. Salvè, irmão.

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