quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O céu não pode esperar!

Como um amante para o seio da mulher amada, como um suicida para a morte. Os astrónomos afirmam que foi um cometa que cruzou os céus naquela noite. Que importa? Fizeram cálculos complicados de invariáveis equações e concluiram que passou apenas a milhares de quilómetros da Lua, repelindo a atracção terrestre. Que está condenado a perecer - qual Ícaro esboçado - quando passar Mercúrio e na mais estranha elipse do destino entregar o fogo ao fogo. E ser consumido. Após complicadas equações e invariáveis cálculos, os astrónomos concluirão que o cometa Escarlate terminou a sua viagem num qualquer ponto preciso, num qualquer segundo exacto. E retomam o seu dia a dia quotidiano de cálculos e equações.

Na mais estranha elipse do destino, não as entregou. Ali estavam guardadas. Para o dia em que partisse novamente, como um suicida para a morte, como um amante para o seio da mulher amada. Ou para as entregar a outro amante. Ou suicida. Estava a centenas de quilómetros e não conseguiu quebrar a atracção terrestre. Quando regressou passou horas a contemplá-las. Afirmam que são apenas conchas. Que importa?

Sim, os barcos ardiam. Chegavam-lhe breves rumores da mais estranha elipse do destino, confirmando uma visão de menino observando barcos a arder. A água estava vermelha. E amarela. Ou parecia laranja. Poderosos os que criam fogueiras na água. E dançam. E levam o fogo ao gelo, poderosos, como suicidas para a morte, como amantes caminhando para o seio da mulher amada. E lançam o fogo ao gelo, suicidas e amantes, ansiando, desejando e arquejando por mais água. E tudo à sua volta derrete, eterno estado liquido perfeitamente navegável.

Luz calor apelo de fogo degelo água limpa turva intragável aprazivel nos lábios que ferem ao tocar Homem Nú a voar ágil e leve eternamente leve criando incêndios arquejando em água descansando enfim num qualquer ponto preciso num segundo exacto mutando arranhando a nova a supernova a cheia em crescente incendiando toda a superficie lunar só de passagem muito ao de leve selvagem em fúria louca dançarino e ilusionista poeta e pianista não lhe toquem não lhe toquem é a morte vermelha a passar amante para o seio da mulher amada suicida para a morte sem virgulas nem contratempos sem contrapesos e meias medidas é o menino é o amante é o cometa errante amarelo laranja vermelho velocidade estonteante desmedida tanto peso tanta água quanto fogo numa vida!