O culto em que me oculto, culpa-te, esculpo-te. Desculpa. Desvendo-te, vendo-me para te vender. Cego, sigo e persigo. Perdido encontro-me de encontro ao teu ventre. Demente, demente. Mente, estoico. Estaco. Avanço, venço, um lenço lanço, tréguas.. que negas. Invicto, invocado... equivocado.
Sou o fantasma que te assombrou toda a noite.. nos teus gemidos inconscientes e opiáceos invocaste-me. Também eu dormia tranquilamente até ser ferido pelo teu apelo de telepata.. estás longe, tão longe... longe demais para te acordar. Encarrego o meu espirito da penosa missão e alcanço-te... fixo-te, asfixias-me. Esfinge... o homem ou a vida? A dádiva... contemplo o teu corpo nú e ferido da batalha carnal que travaste... afasto o corpo fisico do amante que não te satisfez e que dorme solto e egoista o sono do orgasmo.. e entro em ti e faço-te gemer e faço-te tocar e faço-te gritar e faço-te acordar... vês a névoa que sou sorrir para ti e partir... ouves o eco repetido da minha identidade...
- Eu sou Amor... eu sou Amor...
O culto em que me oculto é saliva, dissolvida, é vida... minha querida...
Minha querida...
terça-feira, 17 de agosto de 2010
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Porque era apenas um homem, embalado pelas dúvidas, desejando as certezas. Caminhava aos tropeções ou levitava na vertigem voraz que o aniquilava.. mas sempre respondera ao apelo. E nunca fugia da vontade indómita de batalhar. Perdido já estava, só lhe restava vencê-la.
Porque era apenas uma mulher e as cicatrizes que não tinha no corpo mantinha-as na alma. Estranho castelo aquele, inexpugnável e eternamente invicto, defendido somente pela dor nostálgica de momentos perdidos e jamais esquecidos...
Porque eram apenas um homem e uma mulher consumiram-se pela carne, amaram-se pele a pele, perderam-se em olhares.. faziam alianças enquanto desfaziam temores, erguiam cúpulas de sonhos enquando derrubavam pudores e eram cúmplices em actos ignóbeis e proibidos em que adoravam deuses pagãos. Ajoelhados, cumpriam a sua homenagem com saliva, com gemidos, com palavras incompreensiveis proferidas com a respiração alterada, com unhas a entranharem-se na pele, marcando novos caminhos por desbravar, desbravando novos caminhos por trilhar, trilhando vontades eremitas de desejo, desejando.. desejando... desejando.
Porque era um Deus que passava, embalado pela melodia de uma Deusa que o tocara.
Porque era apenas uma mulher e as cicatrizes que não tinha no corpo mantinha-as na alma. Estranho castelo aquele, inexpugnável e eternamente invicto, defendido somente pela dor nostálgica de momentos perdidos e jamais esquecidos...
Porque eram apenas um homem e uma mulher consumiram-se pela carne, amaram-se pele a pele, perderam-se em olhares.. faziam alianças enquanto desfaziam temores, erguiam cúpulas de sonhos enquando derrubavam pudores e eram cúmplices em actos ignóbeis e proibidos em que adoravam deuses pagãos. Ajoelhados, cumpriam a sua homenagem com saliva, com gemidos, com palavras incompreensiveis proferidas com a respiração alterada, com unhas a entranharem-se na pele, marcando novos caminhos por desbravar, desbravando novos caminhos por trilhar, trilhando vontades eremitas de desejo, desejando.. desejando... desejando.
Porque era um Deus que passava, embalado pela melodia de uma Deusa que o tocara.
E agora?
Noiva, apenas prometida. Noiva que estás na minha vida. Meninos – nós – que brincamos assim. Cuidado com o jogo... podes atingir-me. Cuidado, muito cuidado com o jogo.. podes ser atingida. Aí não me perdoaria, minha querida...
Cuidado com o jogo, cuidado com o jogo... será fácil apaixonar-me por ti... assim. Tens tudo, menina, tens tudo. Não me faças cair. Segura-me. Ampara-me. Sobretudo, trava-me. Se não o fizeres prepara-te para a viagem. Será horrivel, menina. Chamar-te-ei amor. Imaginas?
O resto foi o que eu não quis: perseguição, procura, enlace... Tu foste a noiva que não veio, noiva somente prometida! O resto foi a quebra desse enleio. O resto foi amor, na minha vida....
Cuidado, muito cuidado.
Escuta o lobo que uiva. Recorda o baloiço que balança. Quere-te. Não me queiras, criança.
Tudo o que sobra é um baloiço por descobrir. És a minha menina. Noiva somente prometida. Não me queiras, amor. Não queiras amor na tua vida.
Amo-te.
Cuidado com o jogo, cuidado com o jogo... será fácil apaixonar-me por ti... assim. Tens tudo, menina, tens tudo. Não me faças cair. Segura-me. Ampara-me. Sobretudo, trava-me. Se não o fizeres prepara-te para a viagem. Será horrivel, menina. Chamar-te-ei amor. Imaginas?
O resto foi o que eu não quis: perseguição, procura, enlace... Tu foste a noiva que não veio, noiva somente prometida! O resto foi a quebra desse enleio. O resto foi amor, na minha vida....
Cuidado, muito cuidado.
Escuta o lobo que uiva. Recorda o baloiço que balança. Quere-te. Não me queiras, criança.
Tudo o que sobra é um baloiço por descobrir. És a minha menina. Noiva somente prometida. Não me queiras, amor. Não queiras amor na tua vida.
Amo-te.
Dos possiveis Adeus - I
Hoje recordo quando te criei, Meiga. Dei-te os lábios sensuais, dei-te os braços esguios, dei-te as coxas ágeis.. depois moldei-te a alma. Ensinei-te a altivez com muito de ternura, a cúmplice serenidade com laivos de loucura. Dei-te a voz confiante e pausada ordenada por pensamentos límpidos, dei-te a voz rouca e lânguida comandada por pensamentos promíscuos. Assim te fiz personagem, assim reflecti em espelho convexo a tua imagem.. porque queres agora ser mulher? Ser mulher é tarefa árdua, minha criatura... ser mulher é sorrir quando quer chorar, é ser magoada quando apenas anseia amar - e ser amada, e ser amada - é numa longa e distante caminhada vislumbrar apenas o horizonte que um dia sonhou alcançar. Mas sabes, Meiga? São fogos fátuos, apenas... ser mulher é ser dor, meu amor...
Comigo estavas protegida. Com as duas linhas que imaginei e que te proibi de transpores, era fácil seres feliz. Este monitor era o teu mundo, este teclado a tua mente, e serias feliz porque nunca conhecerias o amor, Meiga. Essa droga intoxicante que nos transforma em farrapos, essa torpe loucura sádica inventada por um deus que não existe.. coloquei-te assim, a meu lado, com madeira e pedras a impedirem-te de seres tocada. Porquê, minha boneca de porcelana? Porque insististe em seres mulher?...
Porque me cortaste os dedos??
O comboio chegou ao fim da viagem, musa. Dá-me a mão e desce enquanto ainda és imagem e personagem, enquanto ainda respiras e és feliz.. fecha os olhos.. tenho que te retirar a alma, agora. Não, não dói. Ainda não és mulher, ainda não..
Dói-me a mim, Meiga.
Comigo estavas protegida. Com as duas linhas que imaginei e que te proibi de transpores, era fácil seres feliz. Este monitor era o teu mundo, este teclado a tua mente, e serias feliz porque nunca conhecerias o amor, Meiga. Essa droga intoxicante que nos transforma em farrapos, essa torpe loucura sádica inventada por um deus que não existe.. coloquei-te assim, a meu lado, com madeira e pedras a impedirem-te de seres tocada. Porquê, minha boneca de porcelana? Porque insististe em seres mulher?...
Porque me cortaste os dedos??
O comboio chegou ao fim da viagem, musa. Dá-me a mão e desce enquanto ainda és imagem e personagem, enquanto ainda respiras e és feliz.. fecha os olhos.. tenho que te retirar a alma, agora. Não, não dói. Ainda não és mulher, ainda não..
Dói-me a mim, Meiga.
domingo, 15 de agosto de 2010
O verbo preliminar
Há quanto tempo tinhas a minha vida nas tuas mãos?
Recordo-me de tentar chegar a ti, com todas as minhas forças. Tu autista, tu trapezista, não o permitias. Dançavas com a minha ilusão, aproximavas-te para ser vista, afastavas-te quando sentias um olhar cansado de tanto te olhar. Baloiçavas, criança... e eu empurrava o baloiço inconcientemente.. ou talvez gostasse de observar a elasticidade das tuas coxas, os movimentos compassados das tuas pernas... para a frente, para trás... nunca viste o meu rosto, lívido de ternura, pungente de amor... eu apenas empurrava o baloiço... não, nunca me viste chorar por ti.
Nunca viste o meu rosto. Tu já viste o meu rosto. És o meu rosto. No meu rosto vês apenas as emoções que me provocas. Toma o pincel.. pinta-o agora. Como queres o meu rosto?.. Esboça um sorriso ao esboçares o meu sorriso, ilusionista. ( É assim que me queres? A sorrir?... mas o meu sorriso é desencantado, bruxa.. cuidado com o que pintas. Por ser tela em branco posso desejar como hei-de ser preenchido. Posso? Posso... poderei?...)
Cobre a tela, apaga a luz e deixa-me descansar. Vais pensar na pintura que sou. E vais pintá-la. E vais ser fiel ao retrato que manténs ( oh, suave presunção ) na tua cabeça.
Vai ser um quadro de amor... vai ser um quadro de amor...
« Terror de te amar num sitio tão frágil como o mundo
mal de te amar neste lugar de imperfeição
onde tudo nos quebra e emudece
onde tudo nos mente e nos separa. »
Recordo-me de tentar chegar a ti, com todas as minhas forças. Tu autista, tu trapezista, não o permitias. Dançavas com a minha ilusão, aproximavas-te para ser vista, afastavas-te quando sentias um olhar cansado de tanto te olhar. Baloiçavas, criança... e eu empurrava o baloiço inconcientemente.. ou talvez gostasse de observar a elasticidade das tuas coxas, os movimentos compassados das tuas pernas... para a frente, para trás... nunca viste o meu rosto, lívido de ternura, pungente de amor... eu apenas empurrava o baloiço... não, nunca me viste chorar por ti.
Nunca viste o meu rosto. Tu já viste o meu rosto. És o meu rosto. No meu rosto vês apenas as emoções que me provocas. Toma o pincel.. pinta-o agora. Como queres o meu rosto?.. Esboça um sorriso ao esboçares o meu sorriso, ilusionista. ( É assim que me queres? A sorrir?... mas o meu sorriso é desencantado, bruxa.. cuidado com o que pintas. Por ser tela em branco posso desejar como hei-de ser preenchido. Posso? Posso... poderei?...)
Cobre a tela, apaga a luz e deixa-me descansar. Vais pensar na pintura que sou. E vais pintá-la. E vais ser fiel ao retrato que manténs ( oh, suave presunção ) na tua cabeça.
Vai ser um quadro de amor... vai ser um quadro de amor...
« Terror de te amar num sitio tão frágil como o mundo
mal de te amar neste lugar de imperfeição
onde tudo nos quebra e emudece
onde tudo nos mente e nos separa. »
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
A bruxa
Miriam... o nome ainda hoje é sussurrado com temor. Os lábios incautos que deixam soltar o seu nome rapidamente se fecham. Segue-se o sinal da cruz, o pedido de perdão a Deus e não se fala mais de Miriam... Miriam era uma bruxa.
Vou falar-vos de Miriam. Miriam era uma menina. Miriam era uma mulher. Miriam era uma anciã de idade indefinida... teria vinte anos certamente, a julgar pelo verde dos seus olhos e pelas longas tranças loiras que bailavam nas suas costas... teria cem anos certamente, quando a observava a colher ervas, a fazer mezinhas e poções, a sarar feridas a falar com os outros a linguagem do Homem e comigo a linguagem dos anjos...
Vou falar-vos de Miriam. Miriam era uma amante que me sarou as feridas com ungento e as secou com palha... Miriam era uma amante que me feriu mortalmente no coração... sem cura possivel restava atenuar a minha dor. Com as suas coxas, com a sua lingua, com o seu sexo.
Miriam era uma bruxa. Assim disseram eles quando magoaram os seus frágeis pulsos com ásperas cordas... quando magoaram as suas costas onde outrora as tranças loiras bailavam, unindo-as a um tosco pedaço de madeira... quando enfim acenderam a pira da redenção para gente rude, de purificação dos mentecaptos... Miriam era uma bruxa que ia ser queimada...
Miriam era Amor quando os seus olhos limpidos de lágrimas derramadas se fixaram nos meus.. e depois na minha mão direita que tanto a acariciara... e depois no punhal que eu erguia... Miriam sorriu quando ele se cravou naquele coração... Miriam era a minha mulher e o único fogo que sentiria seria o que ateávamos todas as noites com o calor dos nossos corpos...
Miriam perdoei os meus assassinos. Não há perdão para o teu.
Vou falar-vos de Miriam. Miriam era uma menina. Miriam era uma mulher. Miriam era uma anciã de idade indefinida... teria vinte anos certamente, a julgar pelo verde dos seus olhos e pelas longas tranças loiras que bailavam nas suas costas... teria cem anos certamente, quando a observava a colher ervas, a fazer mezinhas e poções, a sarar feridas a falar com os outros a linguagem do Homem e comigo a linguagem dos anjos...
Vou falar-vos de Miriam. Miriam era uma amante que me sarou as feridas com ungento e as secou com palha... Miriam era uma amante que me feriu mortalmente no coração... sem cura possivel restava atenuar a minha dor. Com as suas coxas, com a sua lingua, com o seu sexo.
Miriam era uma bruxa. Assim disseram eles quando magoaram os seus frágeis pulsos com ásperas cordas... quando magoaram as suas costas onde outrora as tranças loiras bailavam, unindo-as a um tosco pedaço de madeira... quando enfim acenderam a pira da redenção para gente rude, de purificação dos mentecaptos... Miriam era uma bruxa que ia ser queimada...
Miriam era Amor quando os seus olhos limpidos de lágrimas derramadas se fixaram nos meus.. e depois na minha mão direita que tanto a acariciara... e depois no punhal que eu erguia... Miriam sorriu quando ele se cravou naquele coração... Miriam era a minha mulher e o único fogo que sentiria seria o que ateávamos todas as noites com o calor dos nossos corpos...
Miriam perdoei os meus assassinos. Não há perdão para o teu.
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Eu sou o teu lobo, o teu lobo. Nem tento colocar a pele na tua pele. Uma outra pele mais suave, mais suave. Eu sou lobo. Não procures em mim o principe. Não sou eu, não sou eu. Não te pertenço nem a esta história. Estória. Apareço nesta rábula que inventaste. Chamo-lhe fábula e chamo-me lobo. O que te chamo, é um segredo meu. Só o partilho com o eco que nunce me devolverá o teu nome. Repete – errante – és lobo, lobo, lobo. Eu continuo a gritar Amor, sabias? Só me recordam que sou lobo, lobo, lobo. O que tu és, é um segredo meu. Se nem a mim o confesso como poderia o eco responder Amor?
Eu sou lobo, eu sou lobo meu amor. Se me queres nesta estória, eu estou aqui. Aqui. Na tua história. A uivar Amor. A ouvir lobo.
Ouve o lobo e responde-me tu. Responde Amor que és, amor.
Ouve o amor, o Amor.
Eu sou Amor, meu amor. Eu sou Amor.
Eu sou lobo, eu sou lobo meu amor. Se me queres nesta estória, eu estou aqui. Aqui. Na tua história. A uivar Amor. A ouvir lobo.
Ouve o lobo e responde-me tu. Responde Amor que és, amor.
Ouve o amor, o Amor.
Eu sou Amor, meu amor. Eu sou Amor.
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Agora preciso de ti. Não... preciso que te recordes... sim, preciso de ti. Mais que nunca tenho a estúpida necessidade das tuas ingratas memórias. É-me urgente que te lembres quando eras terra, ar, água e fogo. Mais que nunca tenho a estúpida necessidade que te lembres... mais que quatro elementos, éramos um mundo por explorar. Lembras-te?
FOGO
Eras assim. Eras ave em chamas. E teimavas em ser ave para alcançar um anjo. Talvez o etéreo te concedesse esse dom... atingir o inatingivel, sobrevoar a Terra do Nunca sem chamuscares as tuas penas alvas. Será possivel queimar o fogo? Será possivel atear uma chama no mais louco - e bailarino - incêndio? Maldita... que morras em combustão! Ah.. mas ainda não.
AR
Era assim.. por momentos Siroco que te arrepiava. Lembrava-te talvez o deserto e terras distantes. Era brisa suave ou rajadas pujantes, era o sopro de um deus ausente que te impelia a avançar... Mas tu estática sorrias... e lançavas uma fita que se elevava no ar. Fosse eu humano e talvez corresse para a apanhar. Mas, minha querida, sou apenas um elemento. Mais um mendigo que te estende a mão. E por isso te sopro, suavemente ao ouvido: Não, não... ainda não.
ÁGUA
Eras assim... quanto mais revolta mais calma me transmitias. Elevavas-te e eu sorria. Enlevavas-me e ninguém diria que tais águas num crescendo, perante o nosso lamento, de manifesta inundação... apenas eram um prenúncio, apenas nos sussurravam: Não.. ainda não.
TERRA
É altura de a ela descermos. Não como aventureiros intrépidos, mas como resignados vagabundos. Desde os confins dos mundos que tu, ave, teimas em me assombrar. E do não e não, talvez ainda não, direi sim... também eu sou alado e finalmente viste a batalha que jamais conseguirás vencer. Não é nos céus, é na Terra, que acabarás por perecer!
Eis o testemunho de um vagabundo resignado. Com o facto de, como tu, ser alado. É esta a minha ameaça, é este o meu recado.
FOGO
Eras assim. Eras ave em chamas. E teimavas em ser ave para alcançar um anjo. Talvez o etéreo te concedesse esse dom... atingir o inatingivel, sobrevoar a Terra do Nunca sem chamuscares as tuas penas alvas. Será possivel queimar o fogo? Será possivel atear uma chama no mais louco - e bailarino - incêndio? Maldita... que morras em combustão! Ah.. mas ainda não.
AR
Era assim.. por momentos Siroco que te arrepiava. Lembrava-te talvez o deserto e terras distantes. Era brisa suave ou rajadas pujantes, era o sopro de um deus ausente que te impelia a avançar... Mas tu estática sorrias... e lançavas uma fita que se elevava no ar. Fosse eu humano e talvez corresse para a apanhar. Mas, minha querida, sou apenas um elemento. Mais um mendigo que te estende a mão. E por isso te sopro, suavemente ao ouvido: Não, não... ainda não.
ÁGUA
Eras assim... quanto mais revolta mais calma me transmitias. Elevavas-te e eu sorria. Enlevavas-me e ninguém diria que tais águas num crescendo, perante o nosso lamento, de manifesta inundação... apenas eram um prenúncio, apenas nos sussurravam: Não.. ainda não.
TERRA
É altura de a ela descermos. Não como aventureiros intrépidos, mas como resignados vagabundos. Desde os confins dos mundos que tu, ave, teimas em me assombrar. E do não e não, talvez ainda não, direi sim... também eu sou alado e finalmente viste a batalha que jamais conseguirás vencer. Não é nos céus, é na Terra, que acabarás por perecer!
Eis o testemunho de um vagabundo resignado. Com o facto de, como tu, ser alado. É esta a minha ameaça, é este o meu recado.
domingo, 8 de agosto de 2010
Não sou melhor que tu....
... sou pior. Bem pior, velhote. E é estranho só agora conseguir dizer: Pai.
Mas nunca passará destas 3 letras, velhote. Pai.
Até já.
Mas nunca passará destas 3 letras, velhote. Pai.
Até já.
sábado, 7 de agosto de 2010
Bonecos de trapos. Fantoches não.
Puxaram a corda. Vou ter que dançar. Puxaram a corda! Puxaram a corda! Acorda... acorda ou a corda obriga-te. E eu sei que te magoa acordarem-te assim, com um violento gesto. Como se fosses apenas um fantoche. Uma mera boneca de pano. Acorda, olha a corda, acorda... Olha toda esta gente a aplaudir o teatrinho dos horrores. A barraquinha dos malditos hoje está repleta. Tenho que dançar. Olha a corda, olha a corda. Ela comanda mas não dança, quem dança sou eu. Um braço a levantar... é a minha cabeça que se baixa agora? Olha a minha mão a acenar... Não, não quero. Não quero... mas a corda, a corda... Quem a segura, quem nos comanda? Não, não pode ser esta gente ruidosa que nos observa, que nos violenta com tanto olhar. Quem nos tem assim na mão? Faço uma vénia agora..., não quero... não quero agradecer... mas a corda, a corda... Não acordes, não acordes. Não acordes nem com os estranhos acordes que me impelem a dançar. A mão segura a corda, a mão possui a corda. Olha pela corda... olha pela corda... e agora acorda. Já desapareceram.. já ninguém aplaude. Não sabem que viram uma história de amor. Preferem ver os horrores que estava escrito na peça. Ignoram que na barraquinha dos malditos não há fantoches a dançar. Pura ilusão. Ignoram que eu sou a corda e estou na tua mão.
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
De outras vidas ( Ou quando éramos gatos...)
Caiu mais um raio, bem perto dele.. o cavalo estacou, interrompendo um louco galope, empinando-se.. saltou a ultima ferradura... o cavaleiro aguenta-se na sela e toca violentamente o flanco martirizado da montada com as esporas. Ergue a espada contra os céus negros, desafiando a fúria dos elementos.. mais um clarão a iluminar-lhe a face: livida e molhada, do temporal e das lágrimas de raiva e impotência... o cavalo cai, derrubando este estranho cavaleiro vestido de negro.. que sem olhar para o fiel companheiro de tantas batalhas, corre agora.. derruba arbustos com a espada, cai, levanta-se, corre... voa.. sente a sua alma a disputar-lhe a corrida, ultrapassando-o, invocando-o, incentivando-o.. « Mais rápido... ainda há tempo... corre Siegfried, corre...».. Viu enfim a capela.. e viu-a a ela, enfiando um pesado anel no dedo... ouviu o riso do senescal... não quis ver ele retirar-lhe o véu para a beijar... perdera. Finalmente caíra no campo de honra. Finalmente fora ferido de morte.. sempre soube que nunca devia ter partido para uma batalha já perdida... ajoelhou-se, gritando.. há quem jure que ainda ouve aquele grito gutural, sobrenatural, a assombrar a serra... estava só agora, imaginando a festividade que decorria no palácio.. imaginando o leito onde as carnes dela seriam maculadas por outro. Levantou-se e franqueou a porta sagrada.. mais um clarão a iluminar-lhe a face. Branca e aqueles olhos... inexpressivos, gélidos frios... despojados da alma que nunca mais recuperou na corrida... fechou a porta, recolheu as flores caídas pelo chão.. atirou-as ao ar, rindo.. derrubou as velas nos tecidos púrpura do altar e viu a derradeira fogueira crescer... ouvia os silvos das chamas bailarinas a aproximar-se do seu rosto. E decidido abraçou-as e dançou com elas com a morte a aplaudir, serena... as suas ultimas palavras são recordadas...
- Jamais alguém sairá deste solo imaculado. Condeno-vos! Condeno-vos ao amor eterno e não correspondido! Condeno-vos a sentir o fogo de amar!!
O fogo consumiu-o.. o fogo-fátuo de amar e o fogo quente que lhe devorou a pele...
OS DIAS DE HOJE
Conduzia pela serra, vidro aberto, sentindo aquele ar rejuvenescê-lo. Eram os dias felizes, em que se permitia acordar cedo e partir para Sintra. O ritual era sempre o mesmo. Comprava o semanário, ocupava uma mesa do Central, café e água castelo. Ainda ignora o que o levou naquele dia a escolher um livro de Neruda e a não parar na vila... e seguir até Monserrate.
O palácio nada lhe dizia... afastou-se e resolveu perder-se. Talvez para se encontrar. Desviou-se dos trilhos e entranhou-se naqueles arbustos, naquela verdura cerrada.. depois, veio o apelo. Soube que podia caminhar ali de olhos fechados.. visualizou uma trovoada, uma espada que gotejava chuva, lama, muita lama... com o espirito inquieto apressou o passo... estranhamente apetecia-lhe correr, correr.. nem precisava de pensar no caminho, era como se a sua alma o tivesse desafiado para uma corrida e o invocasse, e o incentivasse... « vá... é já ali... ali... »... chegou a umas estranhas ruinas. Pedras frias e decompostas, cujo tecto eram os ramos enormes de uma velha árvore que teimava em não contar os segredos seculares... olhou para uma placa: « Capela ». E desmaiou.
. . . . .
Tinha-a esperado tempo demais. Conduzia pela serra, vidro aberto, sentindo aquele ar e a companhia rejuvenescê-lo... ia alegre, tocando sempre nas coxas da bela mulher sentada ao seu lado. Ela sorria, ele sorria... parou o carro em Monserrate, e resolveu perder-se com ela... ou encontrar-se... ou saber... ou esquecer...
Ousou entrar com ela naquelas ruinas e olhou-a nos olhos... sim, eram os mesmo que o assombravam. Via nitidamente todas as vidas que ela teve, século após século.. o seu rosto mantinha os traços.. india, árabe... empurrou-a, colando as suas costas ás pedras frias e decompostas, observando os ramos enormes de uma velha árvore que os cobriam, sendo o único tecto que os abrigava... e beijou-a. E entregou-lhe a alma. E amou-a.
Uma voz ecoou dentro de si, fazendo-o estremecer... aquela voz... a sua própria voz...
« Condeno-vos ao amor eterno e não correspondido »..
OS DIAS DE AMANHÃ
Irei pela calada da noite, munido de archotes e picaretas.
Serei um gato « noutra vida quando ambos formos gatos ».
Felino, ágil, esquivo, saltarei o muro...
Queimarei a maldita árvore, cúmplice de uma antiga e secular maldição..
Derrubarei todas aquelas pedras até as deixar inertes, inócuas, inofensivas.
Finalmente, finalmente, maldita capela... liberto-me.
Serei acossado pelo mato, perseguido...
Mas a ultima palavra ainda será minha e será essa a ecoar
nos dias de amanhã
calando de vez a tortuosa condenação:
« E se ao dizer adeus á vida
as aves todas do céu
me dessem, na despedida,
o teu olhar derradeiro..
Esse olhar que era só teu
amor, que foste o primeiro..»
- Jamais alguém sairá deste solo imaculado. Condeno-vos! Condeno-vos ao amor eterno e não correspondido! Condeno-vos a sentir o fogo de amar!!
O fogo consumiu-o.. o fogo-fátuo de amar e o fogo quente que lhe devorou a pele...
OS DIAS DE HOJE
Conduzia pela serra, vidro aberto, sentindo aquele ar rejuvenescê-lo. Eram os dias felizes, em que se permitia acordar cedo e partir para Sintra. O ritual era sempre o mesmo. Comprava o semanário, ocupava uma mesa do Central, café e água castelo. Ainda ignora o que o levou naquele dia a escolher um livro de Neruda e a não parar na vila... e seguir até Monserrate.
O palácio nada lhe dizia... afastou-se e resolveu perder-se. Talvez para se encontrar. Desviou-se dos trilhos e entranhou-se naqueles arbustos, naquela verdura cerrada.. depois, veio o apelo. Soube que podia caminhar ali de olhos fechados.. visualizou uma trovoada, uma espada que gotejava chuva, lama, muita lama... com o espirito inquieto apressou o passo... estranhamente apetecia-lhe correr, correr.. nem precisava de pensar no caminho, era como se a sua alma o tivesse desafiado para uma corrida e o invocasse, e o incentivasse... « vá... é já ali... ali... »... chegou a umas estranhas ruinas. Pedras frias e decompostas, cujo tecto eram os ramos enormes de uma velha árvore que teimava em não contar os segredos seculares... olhou para uma placa: « Capela ». E desmaiou.
. . . . .
Tinha-a esperado tempo demais. Conduzia pela serra, vidro aberto, sentindo aquele ar e a companhia rejuvenescê-lo... ia alegre, tocando sempre nas coxas da bela mulher sentada ao seu lado. Ela sorria, ele sorria... parou o carro em Monserrate, e resolveu perder-se com ela... ou encontrar-se... ou saber... ou esquecer...
Ousou entrar com ela naquelas ruinas e olhou-a nos olhos... sim, eram os mesmo que o assombravam. Via nitidamente todas as vidas que ela teve, século após século.. o seu rosto mantinha os traços.. india, árabe... empurrou-a, colando as suas costas ás pedras frias e decompostas, observando os ramos enormes de uma velha árvore que os cobriam, sendo o único tecto que os abrigava... e beijou-a. E entregou-lhe a alma. E amou-a.
Uma voz ecoou dentro de si, fazendo-o estremecer... aquela voz... a sua própria voz...
« Condeno-vos ao amor eterno e não correspondido »..
OS DIAS DE AMANHÃ
Irei pela calada da noite, munido de archotes e picaretas.
Serei um gato « noutra vida quando ambos formos gatos ».
Felino, ágil, esquivo, saltarei o muro...
Queimarei a maldita árvore, cúmplice de uma antiga e secular maldição..
Derrubarei todas aquelas pedras até as deixar inertes, inócuas, inofensivas.
Finalmente, finalmente, maldita capela... liberto-me.
Serei acossado pelo mato, perseguido...
Mas a ultima palavra ainda será minha e será essa a ecoar
nos dias de amanhã
calando de vez a tortuosa condenação:
« E se ao dizer adeus á vida
as aves todas do céu
me dessem, na despedida,
o teu olhar derradeiro..
Esse olhar que era só teu
amor, que foste o primeiro..»
Sweet dreams are made of this
Fizeste de mim um vagabundo errante, percorrendo a terra dos sonhos só para te encontrar.. já te disse que só lá te encontro? Sabes bem que só lá te toco, só lá te dispo de roupa e defesas, só lá sorrio para ti enquanto as minhas mãos nervosas e desajeitadas percorrem a linha imaginária de um horizonte distante que é o teu corpo nú. Sou náufrago, meu amor. Atravessei oceanos num barco á deriva, levado pela corrente do meu pensamento constante em ti. Expectante por ti. Distante de ti, distante de ti... do longe se faria perto não houvesse tanto a separar-nos. Mas há mares, desertos e cordilheiras que se erguem subitamente e me fazem recuar.. sim, ternura.. também eu receio as ondas e as tempestades de areia. Por isso adormeço e eternamente corro para ti. Para a cama de madeira escura onde gravas os contornos do teu corpo inerte num lençol, onde exalas paixão e transpiras desejo, onde enfim te encontro de olhos semicerrados prestes a abandonar-te á minha posse, á tua entrega, ao nosso querer. E queremo-nos tanto... nas tuas coxas vejo corças selvagens, ágeis e belas, fortes e meigas, que se afastam á primeira caricia... no teu sexo vejo um tronco secular escorrendo seiva após um golpe profundo.. estou viciado no meu sono, já. Só lá posso ser o vagabundo errante que percorre a terra dos sonhos só para te encontrar.
Porque aqui, agora, és apenas uma longa linha do horizonte. Oceanos, desertos e cordilheiras impedem-me de te tocar. Mas assim seguimos, lado a lado... até ao fim do mundo, até á terra dos sonhos.
Porque aqui, agora, és apenas uma longa linha do horizonte. Oceanos, desertos e cordilheiras impedem-me de te tocar. Mas assim seguimos, lado a lado... até ao fim do mundo, até á terra dos sonhos.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Ícaro - ou o sonho de atingir o inatíngivel
Atraía-me aquela Luz imensa, resplandecente, anéis de fogo, promessas de alianças entre mim, um simples e patético Ícaro e um deus maior e eterno, um gigante etéreo, um monstro de chamas com a lingua incandescente que ameaçava lamber-me as feridas da alma.. só naquela forja de fúria teria enfim a cicatriz de uma vida vã, alimentada com sonhos e perdida em desejos... e o apelo de me erguer e voar... e o apelo de me erguer e levitar... ah, o apelo...
Do fogo ás chamas, labaredas de amor. Levitar-avançar. Erguer-me e voar.
Atraía-me aquela Luz imensa, amante envergonhado, que me obrigava a fechar os olhos só de a contemplar.. feria-me a vista de tão brilhante, feria-me a alma de tão distante.. pudesse eu, num efémero instante, perder a visão para a abraçar... e o apelo de me erguer e levitar. Voar. Para a alcançar.
Labaredas de amor de uma alma em fogo que constantemente chamas. Levitar. Avançar.
São as minhas mãos desajeitadas, humanas, calejadas, suadas de tão unidas em preces incontidas, em credos incrédulos, em súplicas e rezas.. se me prezas, apressa-me... inspiras-me quando me velas e de velas a cera, a cera que unirei ao meu dorso fatigado, ao meu torso fustigado, ao meu espirito imolado, e só assim me elevarei...
Amor de labaredas plenas de incertezas. Do fogo ás chamas. Elevar-levitar.
Da viagem nada posso recordar... nem as pessoas minusculas, nem os telhados de colmo que contemplava no alto, do alto do meu ser. Fixava-me em ti e quanto mais me aproximava, mais o ar me sufocava e me fazia recuar.. a tua Luz alentava-me e inequivocamente chamavas-me... quase que jurava que abrias os braços para me receber no peito, nesse que seria o primeiro e ultimo abraço, tão desejado que seria mortal. Deixei de ver pessoas minusculas e telhados de colmo, deixei de sentir o ar que sufocava, e mergulhei na escuridão do espaço sideral, tremendo de desejo e temendo a promessa do abraço que seria mortal. Subitamente o primeiro beijo, que rasgou o negro que me envolvia.. o primeiro toque que me incendiou o rosto... e a entrega final num espasmo fatal, a posse prometida, a cera derretida... era teu minha querida... era teu. Minha querida. Do fogo ás chamas labaredas de amor. Meu amor.. meu amor.
« Ó Ícaro esboçado!, quem soubesse
em vez deste saber de coisas vagas,
com que cera devera unir-te as asas
- para que Sol nenhum as desfizesse! »
Do fogo ás chamas, silhuetas de esboços que nunca foram meus. Nunca quis e nunca soube dizer adeus.
Do fogo ás chamas, labaredas de amor. Levitar-avançar. Erguer-me e voar.
Atraía-me aquela Luz imensa, amante envergonhado, que me obrigava a fechar os olhos só de a contemplar.. feria-me a vista de tão brilhante, feria-me a alma de tão distante.. pudesse eu, num efémero instante, perder a visão para a abraçar... e o apelo de me erguer e levitar. Voar. Para a alcançar.
Labaredas de amor de uma alma em fogo que constantemente chamas. Levitar. Avançar.
São as minhas mãos desajeitadas, humanas, calejadas, suadas de tão unidas em preces incontidas, em credos incrédulos, em súplicas e rezas.. se me prezas, apressa-me... inspiras-me quando me velas e de velas a cera, a cera que unirei ao meu dorso fatigado, ao meu torso fustigado, ao meu espirito imolado, e só assim me elevarei...
Amor de labaredas plenas de incertezas. Do fogo ás chamas. Elevar-levitar.
Da viagem nada posso recordar... nem as pessoas minusculas, nem os telhados de colmo que contemplava no alto, do alto do meu ser. Fixava-me em ti e quanto mais me aproximava, mais o ar me sufocava e me fazia recuar.. a tua Luz alentava-me e inequivocamente chamavas-me... quase que jurava que abrias os braços para me receber no peito, nesse que seria o primeiro e ultimo abraço, tão desejado que seria mortal. Deixei de ver pessoas minusculas e telhados de colmo, deixei de sentir o ar que sufocava, e mergulhei na escuridão do espaço sideral, tremendo de desejo e temendo a promessa do abraço que seria mortal. Subitamente o primeiro beijo, que rasgou o negro que me envolvia.. o primeiro toque que me incendiou o rosto... e a entrega final num espasmo fatal, a posse prometida, a cera derretida... era teu minha querida... era teu. Minha querida. Do fogo ás chamas labaredas de amor. Meu amor.. meu amor.
« Ó Ícaro esboçado!, quem soubesse
em vez deste saber de coisas vagas,
com que cera devera unir-te as asas
- para que Sol nenhum as desfizesse! »
Do fogo ás chamas, silhuetas de esboços que nunca foram meus. Nunca quis e nunca soube dizer adeus.
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Do Anjo
Bem vinda. Esta mão que te aperta é suave como vês. Mas ainda vigorosa. O dedo que vai acariciando a palma da tua mão pertenceu a artistas, a guerreiros, a fadistas e poetas, pertenceu ao vento e á água cálida de um lago ao luar. O braço que se estende, apontando-te a porta, é esguio. Magro e cicatrizado. Marcado. Cada veia saliente diz-te apenas o que não queres ouvir... já não há sangue quente que as possa percorrer. Frio. Gélido. Capaz de congelar as águas cálidas de um lago ao luar. Os olhos... os olhos que te olham não são meus. São tristes e sem expressão. Gastos, gastos. Em rasgos de visões violentas e promessas incumpridas do que assistiram sem viver. Como rapaz do tambor que fui, impedido de combater. São a ideia concreta de que lá longe existe uma aldeia com um lago com águas cálidas. Lidas as mágoas, não lides com elas. Desvia o olhar, estrangeira, que o meu pode queimar. Embora triste e sem expressão. É fogo-fátuo e ilusão.. não te enganes.. são apenas sonhos que vislumbras. Mas não me olhes nos olhos. Olha-me a face... falta um sorriso, bem sei. Pensei que sabias a minha história. Sabes... são apenas rumores. As pessoas que te digam que um dia eu sorri, enganaram-te. Olha para os meus lábios, agora... não são lábios de alguém feliz, pois não? Como esperas ver esta curva efémera formar-se e desaparecer? Ainda assim, toca-lhes. Estão frios. Gélidos. Não, estrangeira. Nunca os verás rasgar-se, num lento movimento, e formarem - por um momento - um esboço de sorriso.Preciso deles, agora. Retira o teu dedo. Deixa-me falar estrangeira.
És bem vinda, se quiseres entrar nesta porta. Mas há algo que para mim não importa, mas que te vejo a pensar, talvez confusa e assustada. E sabes?... Tens razão. Já não tenho coração. Ficou algures na lua cheia, ou no cheiro a terra molhada daquela aldeia, ficou no lago de águas cálidas, ficou no velho porão, ficou soterrado na terra que mineiro algum escavará, ficou no velho Pomarão.
Se ainda assim queres entrar, és bem vinda estrangeira. Mas se olhares agora para os meus olhos verás que te avisam... « não..».
És bem vinda, se quiseres entrar nesta porta. Mas há algo que para mim não importa, mas que te vejo a pensar, talvez confusa e assustada. E sabes?... Tens razão. Já não tenho coração. Ficou algures na lua cheia, ou no cheiro a terra molhada daquela aldeia, ficou no lago de águas cálidas, ficou no velho porão, ficou soterrado na terra que mineiro algum escavará, ficou no velho Pomarão.
Se ainda assim queres entrar, és bem vinda estrangeira. Mas se olhares agora para os meus olhos verás que te avisam... « não..».
domingo, 1 de agosto de 2010
E porque um dia um anjo escreveu:
Desert Rose
Sonhei que sonhava contigo. Nesse sonho invocavas-me e pedias ternamente para te vir adormecer.. É isso que queres?.. Adormecer?.. Adormeço-te.( Vê a explosão de cores que envio para a tua mente... Big Bang - origem -, fogo, barcos a arder submergindo, água - em chamas -, água, mágoa, olhos rasos de água, mágoa, fere, queima.. fogo, chamas, origem, Big Bang e tu a dançar no espaço deixando cair sorrisos que criaram o mundo..)Ternura.. queres imagens de ternura na tua mente... não posso, não devo, sou eterno ( como tu ) não terno ( como tu ). Colombina e Arlequim, mascarados de desejo e expostos de amor. É ternura suficiente, ternura? Não... que disparate... a ternura nunca é suficiente. Nunca serás suficiente.( Fechaste os olhos.. já dormes? Já... já partiste.. não sonhes, não sonhes, não sonhes...)« Quero que me recordem assim, com um sorriso »« Nunca me deste um sorriso, não te posso recordar »Big Bang - origem - de sorrisos... nessa noite choveram sorrisos. Alegres, tristes, nostálgicos, melancólicos... barcos a arder carregados de sorrisos, entregues para recordação, guardados, guardados, guardados...chamas. Em chamas. Chamas-me? Vou. Chamaste-me sim... vim. Já dormes, já dormes mas não te atrevas a sonhar. Água, mágoa, olhos rasos, fere, arde, chama, chama-me, chamo-te... chamo-te!!Open your eyes... open your eyes...Lifeyes... Lifeyes...Open your eyes!!!!!
Sweet desert rose
Each of her veils, a secret promise
This desert flower
No sweet perfume ever tortured me more than this
Sweet desert rose
This memory of Eden haunts us all
This desert flower, this rare perfume
Is the sweet intoxication of the fall »
Sonhei que sonhava contigo. Nesse sonho invocavas-me e pedias ternamente para te vir adormecer.. É isso que queres?.. Adormecer?.. Adormeço-te.( Vê a explosão de cores que envio para a tua mente... Big Bang - origem -, fogo, barcos a arder submergindo, água - em chamas -, água, mágoa, olhos rasos de água, mágoa, fere, queima.. fogo, chamas, origem, Big Bang e tu a dançar no espaço deixando cair sorrisos que criaram o mundo..)Ternura.. queres imagens de ternura na tua mente... não posso, não devo, sou eterno ( como tu ) não terno ( como tu ). Colombina e Arlequim, mascarados de desejo e expostos de amor. É ternura suficiente, ternura? Não... que disparate... a ternura nunca é suficiente. Nunca serás suficiente.( Fechaste os olhos.. já dormes? Já... já partiste.. não sonhes, não sonhes, não sonhes...)« Quero que me recordem assim, com um sorriso »« Nunca me deste um sorriso, não te posso recordar »Big Bang - origem - de sorrisos... nessa noite choveram sorrisos. Alegres, tristes, nostálgicos, melancólicos... barcos a arder carregados de sorrisos, entregues para recordação, guardados, guardados, guardados...chamas. Em chamas. Chamas-me? Vou. Chamaste-me sim... vim. Já dormes, já dormes mas não te atrevas a sonhar. Água, mágoa, olhos rasos, fere, arde, chama, chama-me, chamo-te... chamo-te!!Open your eyes... open your eyes...Lifeyes... Lifeyes...Open your eyes!!!!!
Sweet desert rose
Each of her veils, a secret promise
This desert flower
No sweet perfume ever tortured me more than this
Sweet desert rose
This memory of Eden haunts us all
This desert flower, this rare perfume
Is the sweet intoxication of the fall »
O que herdas:
Percorre devagar todos os medos. Sussurra os torpores. Enfrenta luz e negrumes. Mais além desvendarás segredos... Vens de longe e no teu corpo serás ferido - de morte - vozes que eu já fui. Mas teimas em chamar o nome que já esqueci. E eu invoco-te. E renascemos em ti. A fonte ondeia provocante, meu menino. E sorri.
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