quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Ah!!( Ladino)

Anda... vamos voar. Tonta, porque não acreditas em tapetes voadores?.. vê-me nesta raiva bruta de tanto te querer a derrubar a mesa que o prende... deixa estar a jarra... apanha-la depois... esquece as flores... estão murchas... sente apenas o tapete, que te aquece as costas. Vais sentir-me agora, dentro de ti, a aquecer-te o corpo, a incendiar-te a alma e a gerar explosões de chamas nos teus sentidos...


Vem... temos que regressar... a noite está fria já, o ar rarafeito, e mal conseguimos respirar.. regressemos á terra. Vamos sair do tapete.


Acreditas agora em tapetes voadores?

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Porque apesar de tudo ainda te Amo, Lisboa(me)

Lisboa.me…
Em ruelas emaranhadas
No corpo do bairro antigo.
Entre putas e vadios,
Que se batem por um grito
Na faca das madrugadas.

Lisboa-me…
No gemido das guitarras,
Na beira das outras farpas,
Onde o poeta bebeu.

Lisboa-me…
Na fome que os corvos poisam
Entre o fado mais perdido,
Ou no xaile já vendido
Na esquina da Madragoa.
(Quando o vento anoiteceu.)

Lisboa-me…
Devagar, no meio da rua,
Sem temer a amargura
Das maldições do destino.

Lisboa-me…
No canto de outra Severa,
No roubo da primavera,
Que matou a Mouraria.
Em que o destino era a espera
Num cais de pancadaria.

Lisboa-me…
No crescendo das varinas,
Semeado nas colinas
Que Ofiusa pariu.

Lisboa.me…
Devagar, mas vem de vez
Porque o Tejo é meigo agora.
Deixa-te crescer em mim
Sem tempo, nem pensamento,
Navega o meu corpo afora.

Lisboa.me...
Invade-me e vem agora.
É minha a fome e a cidade.
É teu o leme, é tua a hora.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

albrecht... Giselle

Albrecht e Giselle

Falemos deles... ou da força do amor. Ou de um amor á forca condenado. Ou de vontades. Da tua, Giselle. Cobri-me de farrapos para não te escandalizar. Duque ou não, com ou sem brasão, tudo me impelia a aparecer-te nú. A transpirar. Febril de desejo. Apareci-te como aldeão... para entrar no teu mundo e assim em ti. E de ti um sim, um abraço possante, a vontade de uma amante, o enlevo que me levitou até ao sono que - louca, o que fizeste?? - te consumiu. Não me toquem agora... resta-me adormecer. Adormecer, adormecer... levitar, levitar... impelido pela esperança que a tua vingança seja servida para me atormentar. Até á eternidade, camponesa. Dá-me essa certeza. Que toda a minha vida será uma tortura infinita de contemplar o teu rosto e, se tentar acariciá-lo, vê-lo desvanecer! Como fumo ou ilusão. Agridoce tortura essa. Sempiternamente sentir em mim o teu olhar. Mesmo que não seja real e que realmente seja para me amaldiçoar.

E a bailarina, crê no amor e rodopia frenética. Toca o soalho com as coxas e atira a cabeça para trás. Assim. Num segundo. Num esgar. É o seu mundo e de mim um sim. Aplaudo. Vamos continuar.

Myrtha, rainha. Louca e enfurecida, ceifas assim a vida, num único estertor. Benévola Myrtha, não senti dor. Estranha eutanásia que me foi oferecida. A alma já não a tinha, a vida era uma adiada despedida e cada segundo era um compromisso teu. Recordo o céu e as paisagens - só vejo imagens, imagens, imagens - de uma outra vida em que era duque. E não era eu. Vou contigo rainha. E toma-me nos teus braços como o filho nunca amado. Alimenta-me, amamenta-me e condena-me. Mas tem piedade: que seja já... o nó. não se desfaz. Nós... ainda penso... Sinto nós. E nós nada somos para ti. O que fazes aqui Giselle? Afasta-te... Myrtha ordenou... Não, não posso. Caí - anjo caído- deixa-me moribundo. Neste mundo já não estou ferido. Não! Recolhe a mão... porque não a quero... já não sinto dor. O que fazes? Porque danças agora? Porque? Estou caído.. caído... Traído... Porque danças? Ninguém dança por amor...

Dos possiveis adeus II

Vai, ave liberta. Nada em mim te pertencia. Talvez eu, apenas eu. O que seria pouco acaba por ser nada. Do nada se faria pouco? Ou demais? Que importa, ave, que importa? Vamos chorar baixinho ou sorrir estridentemente? Eu nao sou: estou. Estive. Estarei. Tu eras. Era...

Hera, cresce. Enfim liberta. Nada em mim te pertence. Talvez os oculos escuros perdidos no teu carro. Abandonados. Cresce, Hera. Era uma vez um veneno intoxicante, era uma vez um intoxicado venenoso. Era uma vez, Hera, era... era...

Vem-te, ave desperta. Agora, agora... AGORA! Venho-me assim para o teu mundo. Nada em ti me pertence. Talvez a derradeira praga que me lançaste: amo-te.

Fica com a praga. Com os oculos... mas vai, ave liberta. Nada nos pertencia. Nem eu a ti, nem tu a mim. Nem eu a mim. Muito menos o tal amor. Vamos chorar baixinho ou sorrir estridentemente?