Lisboa.me…
Em ruelas emaranhadas
No corpo do bairro antigo.
Entre putas e vadios,
Que se batem por um grito
Na faca das madrugadas.
Lisboa-me…
No gemido das guitarras,
Na beira das outras farpas,
Onde o poeta bebeu.
Lisboa-me…
Na fome que os corvos poisam
Entre o fado mais perdido,
Ou no xaile já vendido
Na esquina da Madragoa.
(Quando o vento anoiteceu.)
Lisboa-me…
Devagar, no meio da rua,
Sem temer a amargura
Das maldições do destino.
Lisboa-me…
No canto de outra Severa,
No roubo da primavera,
Que matou a Mouraria.
Em que o destino era a espera
Num cais de pancadaria.
Lisboa-me…
No crescendo das varinas,
Semeado nas colinas
Que Ofiusa pariu.
Lisboa.me…
Devagar, mas vem de vez
Porque o Tejo é meigo agora.
Deixa-te crescer em mim
Sem tempo, nem pensamento,
Navega o meu corpo afora.
Lisboa.me...
Invade-me e vem agora.
É minha a fome e a cidade.
É teu o leme, é tua a hora.
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