segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
A última noite
Eles sabem que é a última noite e deixam a janela aberta. Não há vento. Nem um sopro. Não há tempo. A perder. Não sentem frio. Nem um pouco. Nem há cortinas. Não há nada a esconder. Gostam dos limites, os loucos. Amam o cheiro a sexo daquele quarto. Estão agora em ponto morto, olhando por uma janela aberta o horizonte, que é uma promessa e uma canção abandonada. Não sentem frio, nem um pouco. Eles sabem que é a ultima noite e não se escondem de nada. Vagueiam um pelo outro tacteando sombras e esconderijos, e porque gostam dos limites atrevem-se a sorrir um para o outro. Os loucos. Estão conscientes que despertaram algo há muito escondido, refugiado entre sombras e esconderijos. E nasce uma cortina. E sente-se um sopro. E entra o vento. E tremem agora. E porque gostam de extremos continuam a sorrir, eternos um para o outro. Eternos, um pelo outro. E são já rajadas que fecham a janela com estrondo. Não há tempo... perderam-se. Continuarão malditos um para o outro, um pelo outro, porque a última noite foi a primeira promessa de mais noites e canções abandonadas.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Sessenta minutos
Um dois são passos apressados. Três quatro é a porta que se abre. Cinco seis segundos intermináveis. Sete oito fechas a porta com estrondo. Nove dez e um quarto da manhã. São onze doze suspiros impacientes. Treze quatorze voam os sapatos. Quinze dezasseis suspiros incontidos. Dezassete dezoito cai o pano deslizando pelas tuas pernas. Dezanove vinte pancadas de Moliére. Vinte e uma e vinte e duas gotas de suor a escorrer. São vinte e três ou vinte e quatro os gemidos que te arranco. Contei vinte e cinco ou vinte seis marcas de unhas ferozes. Por vinte e sete vezes sussurraste « amo-te ». Em vinte e oito movimentos entre as tuas coxas arquejei « eu também ». Vinte e nove trinta não te atrevas a parar. Trinta e uma que és tu trinta e dois que somos nós não nos atrevemos a parar. Trinta e três trinta e quatro e um quarto a arder. Trinta e cinco trinta e seis podes parar de gemer. Grita agora entre os trinta e sete ou trinta e oito espasmos. Por trinta e nove vezes receei morrer de tanto êxtase. Por quarenta vezes desejei morrer assim. São quarenta e uma gotas de chuva que deslizam naquela janela. Quarenta e duas elevações do teu peito ainda sôfrega e meia adormecida. Quarenta e três ou quarenta e quatro - não recordo bem - carícias no teu cabelo. Quarenta e quatro quarenta e cinco sorrisos partilhados. Abraça-me agora, esmaga-me contra ti, entre quarenta e seis ou quarenta e sete lágrimas de pensamentos felizes. Por quarenta e oito vezes parei o tempo contigo nos braços. Quarenta e nove vezes pediste ao tempo para se retirar. Cinquenta os sulcos no teu sexo que trilhei. Cinquenta e um perímetros marcados. Cinquenta e duas gotas de Vida que te escorrem pelas coxas. Já são cinquenta e três gotas de chuva naquela janela. Foram cinquenta e quatro ou cinquenta e cinco vezes que me amaste com o teu olhar? Sei que foram exactamente cinquenta e seis olhares de incontida ternura que te devolvi. Cinquenta e sete ou cinquenta e oito vezes que tentas adormecer. Adormeço-te ao cinquagésimo nono tremor. Sessenta minutos, meu amor. Enquanto dormes ligo a televisão... há horas felizes, anunciam. Desligo. Adormeço para te invadir os sonhos. Quero estar sempre contigo.
sábado, 14 de janeiro de 2012
Dos lugares malditos: Numenor
É aqui, aqui. Entre o feitiço e o teu quarto, quarto crescente de uma lua nova que tenta as marés e os viajantes. É aqui, meu amor, está agora completa esta história de gigantes. Nada, nada mais importa. Nada, nada mais existe. Porque Numenor é, afinal, o teu lugar. Aqui chegaste, a voar, ágil e leve... tinhas que te tornar leve, divinamente leve. Em lugares malditos procuraste o homem, que se fez menino para te encontrar. É aqui, aqui, entre o feitiço e o teu quartzo, magnésio de bússola errante, estranho quadrante que te dei, poção tão terna, lugar maldito, porção de terra entre vales de sonhos e lençois marcados, vencidos por dois corpos ágeis e selvagens cuja derradeira gota de suor será para lembrar que se disse amor.
Porque Numenor nunca foi o Homem. Foi sempre o teu lugar. O menino nú espera-te, pequeno pássaro.. anda. Podes entrar.
Porque Numenor nunca foi o Homem. Foi sempre o teu lugar. O menino nú espera-te, pequeno pássaro.. anda. Podes entrar.
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