sexta-feira, 6 de agosto de 2010

De outras vidas ( Ou quando éramos gatos...)

Caiu mais um raio, bem perto dele.. o cavalo estacou, interrompendo um louco galope, empinando-se.. saltou a ultima ferradura... o cavaleiro aguenta-se na sela e toca violentamente o flanco martirizado da montada com as esporas. Ergue a espada contra os céus negros, desafiando a fúria dos elementos.. mais um clarão a iluminar-lhe a face: livida e molhada, do temporal e das lágrimas de raiva e impotência... o cavalo cai, derrubando este estranho cavaleiro vestido de negro.. que sem olhar para o fiel companheiro de tantas batalhas, corre agora.. derruba arbustos com a espada, cai, levanta-se, corre... voa.. sente a sua alma a disputar-lhe a corrida, ultrapassando-o, invocando-o, incentivando-o.. « Mais rápido... ainda há tempo... corre Siegfried, corre...».. Viu enfim a capela.. e viu-a a ela, enfiando um pesado anel no dedo... ouviu o riso do senescal... não quis ver ele retirar-lhe o véu para a beijar... perdera. Finalmente caíra no campo de honra. Finalmente fora ferido de morte.. sempre soube que nunca devia ter partido para uma batalha já perdida... ajoelhou-se, gritando.. há quem jure que ainda ouve aquele grito gutural, sobrenatural, a assombrar a serra... estava só agora, imaginando a festividade que decorria no palácio.. imaginando o leito onde as carnes dela seriam maculadas por outro. Levantou-se e franqueou a porta sagrada.. mais um clarão a iluminar-lhe a face. Branca e aqueles olhos... inexpressivos, gélidos frios... despojados da alma que nunca mais recuperou na corrida... fechou a porta, recolheu as flores caídas pelo chão.. atirou-as ao ar, rindo.. derrubou as velas nos tecidos púrpura do altar e viu a derradeira fogueira crescer... ouvia os silvos das chamas bailarinas a aproximar-se do seu rosto. E decidido abraçou-as e dançou com elas com a morte a aplaudir, serena... as suas ultimas palavras são recordadas...

- Jamais alguém sairá deste solo imaculado. Condeno-vos! Condeno-vos ao amor eterno e não correspondido! Condeno-vos a sentir o fogo de amar!!

O fogo consumiu-o.. o fogo-fátuo de amar e o fogo quente que lhe devorou a pele...

OS DIAS DE HOJE

Conduzia pela serra, vidro aberto, sentindo aquele ar rejuvenescê-lo. Eram os dias felizes, em que se permitia acordar cedo e partir para Sintra. O ritual era sempre o mesmo. Comprava o semanário, ocupava uma mesa do Central, café e água castelo. Ainda ignora o que o levou naquele dia a escolher um livro de Neruda e a não parar na vila... e seguir até Monserrate.

O palácio nada lhe dizia... afastou-se e resolveu perder-se. Talvez para se encontrar. Desviou-se dos trilhos e entranhou-se naqueles arbustos, naquela verdura cerrada.. depois, veio o apelo. Soube que podia caminhar ali de olhos fechados.. visualizou uma trovoada, uma espada que gotejava chuva, lama, muita lama... com o espirito inquieto apressou o passo... estranhamente apetecia-lhe correr, correr.. nem precisava de pensar no caminho, era como se a sua alma o tivesse desafiado para uma corrida e o invocasse, e o incentivasse... « vá... é já ali... ali... »... chegou a umas estranhas ruinas. Pedras frias e decompostas, cujo tecto eram os ramos enormes de uma velha árvore que teimava em não contar os segredos seculares... olhou para uma placa: « Capela ». E desmaiou.

. . . . .

Tinha-a esperado tempo demais. Conduzia pela serra, vidro aberto, sentindo aquele ar e a companhia rejuvenescê-lo... ia alegre, tocando sempre nas coxas da bela mulher sentada ao seu lado. Ela sorria, ele sorria... parou o carro em Monserrate, e resolveu perder-se com ela... ou encontrar-se... ou saber... ou esquecer...

Ousou entrar com ela naquelas ruinas e olhou-a nos olhos... sim, eram os mesmo que o assombravam. Via nitidamente todas as vidas que ela teve, século após século.. o seu rosto mantinha os traços.. india, árabe... empurrou-a, colando as suas costas ás pedras frias e decompostas, observando os ramos enormes de uma velha árvore que os cobriam, sendo o único tecto que os abrigava... e beijou-a. E entregou-lhe a alma. E amou-a.

Uma voz ecoou dentro de si, fazendo-o estremecer... aquela voz... a sua própria voz...

« Condeno-vos ao amor eterno e não correspondido »..


OS DIAS DE AMANHÃ

Irei pela calada da noite, munido de archotes e picaretas.
Serei um gato « noutra vida quando ambos formos gatos ».
Felino, ágil, esquivo, saltarei o muro...
Queimarei a maldita árvore, cúmplice de uma antiga e secular maldição..
Derrubarei todas aquelas pedras até as deixar inertes, inócuas, inofensivas.

Finalmente, finalmente, maldita capela... liberto-me.

Serei acossado pelo mato, perseguido...

Mas a ultima palavra ainda será minha e será essa a ecoar
nos dias de amanhã
calando de vez a tortuosa condenação:

« E se ao dizer adeus á vida
as aves todas do céu
me dessem, na despedida,
o teu olhar derradeiro..
Esse olhar que era só teu
amor, que foste o primeiro..»

1 comentário:

  1. Curioso encarnares uma personagem Wagneriana...algo que paira entre Neuschwanstein e Schloss Linderhof. Deixa os corredores sombrios do primeiro e do segundo, e deleita-te na Galeria de espelhos do Herrenchiemsee, onde a luz inunda tudo...Luis da Baviera era neurótico e a sua paixão por Sissi de nada tinha a ver com a homosexualidade que lhe atribuíram no fim da sua curta vida...

    ...

    Que perfeito coração
    no meu peito bateria,
    meu amor na tua mão,
    nessa mão onde cabia
    perfeito o meu coração.

    E se invocas terras de Byron...

    She Walks in Beauty

    She walks in beauty, like the night
    Of cloudless climes and starry skies;
    And all that's best of dark and bright
    Meet in her aspect and her eyes:
    Thus mellowed to that tender light
    Which heaven to gaudy day denies.

    One shade the more, one ray the less,
    Had half impaired the nameless grace
    Which waves in every raven tress,
    Or softly lightens o'er her face;
    Where thoughts serenely sweet express
    How pure, how dear their dwelling place.

    And on that cheek, and o'er that brow,
    So soft, so calm, yet eloquent,
    The smiles that win, the tints that glow,
    But tell of days in goodness spent,
    A mind at peace with all below,
    A heart whose love is innocent!

    Innocent kiss :)

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