Espelho convexo, reflexo do teu reflexo aperta-o bem contra o teu peito, guarda-o sempre junto de ti. Que ele nunca se parta, estranha telepata. Nele vislumbrarás anjos, dele escutarás histórias de encantar. Verás montanhas por escalar e rios por descobrir, vales profundos envergonhados e escondidos, colinas onde nunca anoitece. Verás passeios de mãos dadas – apertadas -, ouvirás sussurros e promessas, sentir-te-ás o primeiro grão de areia transportado pelo imenso mar. Guarda bem esse espelho, reflexo do teu desejo, guarda-o bem junto ao teu peito, porque se o partires ver-me-ás a mim.
Espelho quebrado, partido. Não te mostrará anjos, não. Verás o demónio carnívoro que não conhece canções de embalar. Que de montanhas e colinas pouco sabe. Nem se interessa. Que se te vir como grão de areia no mar, será navio. Para te trespassar. Que da tua pele se alimentará. Da tua pele. Na tua pele, a minha pele. Suada, imunda. Como a tua. Nua.
Espelho complexo reflexo convexo do que é, afinal, o teu grito. Espelho partido quebrando com ele a fantasia. Por reflectir a verdade será por toda a eternidade. Um espelho não é inteiro nem reflecte ilusão. É apenas uma metade reflectindo outra metade. É apenas na tua pele a minha pele. Da tua pele a imagem distorcida. Da minha pele que é a tua vida.
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