Tinham o estranho hábito de se reunir no Gelo, cuspindo raiva e loucura bombista entre grogues de bagaço e pólvora. Olhares ferozes, linguagem rude, gestos ocos e palavras vãs, olhares ferozes e furtivos de animais desconfiados, de bestas enfiadas em sobretudos de cobardia, sobre tudo e toda a infâmia. Grogues de bagaço e petardos de pólvora depois, seria fácil descer ao terreiro e disparar. Disparar balas sobre uma família. Atirar grogues de pólvora a um pai. Ao filho. Caído já no colo de sua mãe. De sua esposa. A turbe incrédula, chorando. Gritando. Confusão. Há quem diga que um grito gutural ecoou então no terreiro da desgraça: mataram o Rei. Há quem jure que só entre soluços de orfandade conseguiram terminar: viva o rei. Nunca se disse viva Portugal.
Não foram dois homens que ali, naquele dia, foram assassinados. Não foi um pai e um filho que as bestas tombaram. Esses cães, naquele dia, mataram Portugal.
Nuno M. F. in Ypsilon
Mundo tão pequeno que gera estas agradáveis surpresas. Tenho este texto guardado e disse-o na altura que tinha curiosidade em conhecer o autor. Creio que é daquelas crónicas que ficam e geram efectivamente vontade de agir. Uma certa simpatia por uma causa que, julgo não me enganar, era o que pretendias. Temos arauto do rei? Que agradável surpresa, NU M. F. é o ' meu ' maldito. Cumprimentos e reverência.
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