Estive um dia num monte, por todos ignorado. E uma noite. Até ser dia, outra vez. No monte e na vida. Era Verão, isso lembro-me, porque estava de tronco nú. Ou seria Inverno e tinha apenas calor. Deitei-me junto a uma árvore.. lembro-me da lua pálida, fria, agreste. Recordo-me das estrelas. E grilos... havia grilos. E recordo-me de os ver, todos, numa presença onírica ainda hoje por esclarecer. Naquele monte reuniam-se todos. Todos. Todos os que morreram a sorrir. E dançavam ao som de grilos, iluminados pela lua pálida com as estrelas a contemplar. Vultos. Sombras. Sorrisos... todos os que morreram a sorrir, num estranho baile sem convite para mim. Lembro-me de rasgar o céu uma estrela cadente, assim, de repente... e não precisei de me lembrar da minha avó. Do meu avô. Estavam ali, fantasmas - vultos, sombras - a dançar enlevados. Porque morreram a sorrir.
- Pede um desejo... pede um desejo quando vires uma estrelinha a cair.
Não precisei de recordar a voz, porque via - nitidamente - os meus avós. Fechei os olhos a sorrir e desejei dançar com eles. Todos eles. Um dia. E uma noite. Até ser dia, outra vez. No monte e na vida. E na morte. E os grilos, os grilos, os grilos tocavam naquela estranha sinfonia que convida a adormecer e a sonhar com fantasmas ao luar, que naquela onírica melodia invectivam-nos a continuar, toda a noite. Até ser dia. Outra e outra vez. Um amanhecer constante e distante, num monte por todos ignorado, num baile por assistir. E sempre pedi um desejo quando vi uma estrelinha a cair.
Voltou lá, um dia. Já o vi em sonhos. Uma presença onírica. Curvado e derrotado, apoiado num cajado.. mas contudo, sorria. Era um vagabundo talvez, que foi contemplar um baile sem convite para ele. E os grilos ainda tocavam, os fantasmas ainda dançavam, porque morreram a sorrir. Passou a mão na barba. As lágrimas não poderiam lá ficar. Aqueles vultos, sombras, sorrisos.. valsas delicadas em gestos precisos. Aquele odor a chuva molhada, apesar de ser Verão. Estava já em tronco nú, a camisa encharcada pelo chão. Ou seria Inverno e tinha apenas calor... Sorriu... sorriu... o cajado caiu-lhe da mão... As pernas cederam, e deu-se uma explosão. Na sua mente, de repente, qual estrela cadente sem desejos realizados, viu passar uma vida. A sua vida. Que lhe passou ao lado. Ao seu lado também caído, o cajado... mas ele sorria... e a sorrir ali ficou.
E dança agora também. Foi convidado.
O adeus derradeiro esse. Escreves sobre a tua morte com a ligeireza com que escreves sobre a vida. Tens muito para escrever ainda. rs Beijo estranho Numenor.
ResponderEliminarSim, MD .. a morte e ligeira. Gostava de morrer assim: a sorrir. Façam-me essa vontade. :-)
ResponderEliminarCitando alguem que agora ja dança naquele monte: Nao quero lagrimas no meu funeral. Se vir alguem a chorar, juro que nao apareço!
:) Beijocas. E para a cria. **