segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Dos lugares malditos - Mina de São Domingos

« Nas minas de S.Domingos
Morreram quatro mineiros, vê lá
Vê lá companheiro, vê lá
Vê lá como venho eu... »

Isabel costurava... a velha máquina ainda trabalhava. Todos lhe diziam que era boa - é Singer, Isabel!! - como se o movimento repetitivo de um pé estragado pelo tempo, carregando furiosamente num pedal desgastado pelo uso, desse á sua companheira de sempre outro nome que não fosse Trabalho. Não é Singer, nem singela. É trabalho. Com quatro filhos a assoarem-se ás suas saias, com um homem colocado doze horas - dia sim dia não - no mais fundo poço da escuridão, Isabel costurava. E ia trauteando a velha canção...

« Oh Senhora Santa Bárbara
Padroeira dos mineiros, vê lá
Vê lá companheiro
Vê lá como venho eu... »

António arrancava terra á Terra. Sacrílego, profano... no mais fundo poço da escuridão, António com uma pilha á cabeça e uma singela - não Singer -picareta na mão, avançava e avançava, a terra á Terra arrancava, e quando a força já esgotada, lhe implorava uma pausa... António dizia não!! Tinha Isabel e quatro filhos. António ria-se só de recordar quatro pequenos diabos a assoarem-se ás saias da mãe. Que seja escura esta terra... de bom grado lhe chamarei Inferno! Que venha o próprio Belzebu... se me sento só descanso o cú!!! Mais umas horas e dispo as saias cheia de ranho da minha Isabel!! Ah... filho dum cabrão dum mineiro que a terra pariu mas não há-de enterrar! Nã senhora!! Amo tanto esta terra que a hei-de esgravatar!

Isabel ficou lívida...seriam duas da manhã ou outra hora qualquer.. parou o Tempo para Isabel e para outra qualquer mulher. Todo aquele povoado, por São Domingos abençoado ameaçava ruir. Nem Santa Bárbara - a tal padroeira - poderia evitar: abatera uma barreira!! Quatro homens soterrados!! Ainda há esperança, ainda há esperança... Quatro vidas enterradas... Quatro homens isolados!! Abateu uma barreira, Isabel. A barreira que colocará o teu filho mais velho nas minas que devoraram o seu pai. Deixa-o assoar uma vez mais nas tuas saias... desta vez não é ranho. São lágrimas.

« Nas minas de S.João
Morreram quatro mineiros, vê lá
Vê lá companheiro, vê lá
Vê lá como venho eu...

Eu trago a camisa rota
E o sangue dum camarada, vê lá
Vê lá companheiro, vê lá
Vê lá como venho eu...

Oh Senhora Santa Bárbara
Padroeira dos mineiros, vê lá
Vê lá companheiro
Vê lá como venho eu...

Eu trago a cabeça aberta
La la la la la la la la Abateu uma barreira, vê lá
Vê lá companheiro, vê lá
Vê lá como venho eu...

Eu trago a camisa rota
E o sangue dum camarada, vê lá
Vê lá companheiro, vê lá
Vê lá como venho eu...

Oh Senhora Santa Bárbara
Padroeira dos mineiros, vê lá
Vê lá companheiro
Vê lá como venho eu... »

6 comentários:

  1. .... Nem Torquemada se atreveria a passar o lápis azul em mineiros agonizantes de O2 e piedosas esposas de labuta sol-a-sol... Nem Torquemada! Contudo, quando aqui venho, e com prazer, Numenor, espero tudo menos ser recordado da Sic Notícias. Compensa saber que tens coração social: nunca te iludas, Numenor, Torquemada não é insensível à Cruz. Ah, e começa a corrigir essa acentuação - "à" e não "á". ;-) (Perdoa o reparo, mas penso que deves polir ao máximo a tua expressão pública, apenas isso.)

    Ainda atento.

    Ass.: Torquemada

    ResponderEliminar
  2. Caro Torquemada espero que continue a vir sim, mas mais atento.. sic noticias? Naquele tempo? ;-)

    Não confunda um ensopado de borrego com uma perca chilena. Ou a estrada da beira com a beira da estrada.. and so on. Não se perca ( sem ser chilena )em pormenores de cariz social e em intenções de voto á direita ou à esquerda. São fúteis. :-) Fica o abraço.

    ResponderEliminar
  3. Terno como sempre. Amargo desta vez. Estranho ainda. Envolvente. Desculpa mas este não consigo comentar. Bj estranho Numenor. Bj.

    ResponderEliminar
  4. Numenor, old chap, não era sobre a forma o meu comentário, mas sim sobre o conteúdo. O canal noticioso aparece, (de forma alietória, podia ser o Pravda ou Diário de Bragança) porque ainda está fresca na memória colectiva os dramáticos eventos em terras de perca. That`s all. Escolha múltipa: a tua revisitação ao cancioneiro popular de Sta. Bárbara Bendita, para mim, foi como:
    a) chegar a casa depois de uma maratona entre um monte alentejano e o concessionário da Singer mais próximo, sem água e com um espinho no pé, abrir o pc enquanto jantava para enviar informação inadiável sobre o meu trabalho, engolir o último gomo de tangerina, fazer um ufffffff prolongado enquanto descalçava o tal espinho, abrir o teu blog, expectante e entusiasmado por uma lufada de ar fresco intelectual, dar de caras com a agonia de uma mãe cuja saia tinha ranho de pobreza e lágrimas de dor de pequenos petizes, ver o meu coração destroçado com tal, tocarem-me à campainha, eu perguntar: “quem é?”, alguém respondeu: “É back to reality.”, e eu ir lavar os dentes antes de ir para a cama, sem precisar de valium no bucho?
    b) Pensar que, algures, algumas décadas ou séculos atrás, sei lá!, a Sic Noticias cobria, technicolor e live, as mortes trágicas para as infelizes gentes de Aljustrel?

    Sobre o teu comentário – esquece a escolha múltipla, agora é “sim” ou “não”:
    a) Serão intenções de voto? (Pista: já me conheces o cinismo bastante para saber que eu prefiro o People and Arts - com receitas do melhor e decoração de jardins e interiores - ao tal canal…)
    b) Será fútil amar, (como tu amas, bem sei, por isso estou aqui a falar contigo), a língua-mãe de A Mensagem, ou de Aquilino Ribeiro, ou de Eugénio de Andrade, ao ponto de não gostar assim lá muito de a ver mal escrita…?
    ;-)

    Ah, e faz aí um post culinário. A sério! Isso é que era! Ensopado de borrego, Numenor…? Quando? Onde? Eu levo o tinto and we gonna have a time of wine and roses…! 

    Cada vez mais atento.

    Ass.: Torquemada.

    ResponderEliminar
  5. MD a sua presença faz sentido, com ou sem comentário. Beijocas. :))

    TORQUEMADA de quando em vez lá tenho que voltar ao mesmo, mas para si fá-lo-ei: este espaço, os lugares malditos, todas estas letras vagabundas não passam de uma única coisa: memórias, recordações, pessoas e paisagens, ventos e viagens. Coloridas. Com dor ou a tal ternura. Com tragédias delico-doces. Ou escritas para uma criança, género conto de fadas. Logo, fico feliz por ter esquecido o Chile. Um pouco estupefacto quando vai para Aljustrel. Está lá, Torquemada: SÃO DOMINGOS. Nada na manga: SÃO DOMINGOS. ;-) Um lugar esquecido que eu teimo em recordar e em regressar. A Isabel existiu. E tenho a honra de apertar a mão ao renhoso mais velho que tomou o lugar de seu pai na mina. ;-) Gostaria de o conhecer, Torquemada. Estou certo disso. A verdadeira expressão e a verdadeira palavra reside nele. Tal como em muitos Antigos. Tem a chama. O Aquilino dispenso. O grande Eugénio ou um Pessoa responder-lhe-iam contudo melhor que eu sobre as suas preocupações estéticas.. :-)

    Aquele abraço de sempre.

    ResponderEliminar
  6. Perdão, esqueci-me do principal: ensopado de borrego na Mina. Não leve vinho que ofende aquela gente. Leve-se. Eu levo-o. ;-)

    ResponderEliminar