domingo, 14 de novembro de 2010

Há dois mil anos ( ou quase ) - II

Sentiu coragem de o voltar a abrir.. olhou, fascinado, aquele universo de teclas brancas, de teclas negras, devassadas por tantas mãos incompetentes... gastas, já.. sujas.. conspurcadas. Olhou para as suas próprias mãos. Estavam suadas. Tremiam. Olhou-as como quem olha a derradeira esperança de uma vida serena.. mas duvidava delas, assim perfiladas e estendidas, pedintes, magoadas, mas.. ansiosas... ansiosas... vertigem, espaço. Que música criariam umas mãos destroçadas? Como reagiriam teclas brancas, teclas negras, devassadas, sujas e conspurcadas ao toque nervoso das pontas de uns dedos ágeis outrora, assustados agora?...


- Play it again, Numenor... play it again.

( You must remember this! )

Iniciou aquele estranho caleidoscópio de memórias com um lento bailado. Os dedos cruzavam-se, suavemente... tocava delicadamente nas teclas brancas - harmonia - , tocava ferozmente nas teclas negras - agonia -, os olhos assim fechados eram promessas de um espirito tranquilo.. falsas promessas essas. Viajava o espirito, para longe... tão longe... não queria ser alcançado...

- Play it again, Numenor, play it again!!

A música era estranha... amarga. E até o liquido que caía nas teclas brancas da harmonia ( pling..), nas teclas negras da agonia, embalavam-no, invocavam-no... limpou a testa com um lenço branco, não queria mais gotas de suor a fazerem pling nas teclas brancas da harmonia...

Pling...

Teria que limpar os olhos... teria que limpar os olhos...

- Don't play it again, Numenor ...

« I know it’s coming
There’s going to be violence
I’ve taken as much
As I’m willing to take
Why do you think
We should suffer in silence
When a heart is broken
There’s nothing to break » ..

6 comentários:

  1. mt bonito o blog. belas palavras... Beijinho.. Gostei de ler

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  2. Play it again Numenor...
    Que fazer perante uma atracção fatal que impõe que se toque? Que limita movimentos? Que fica e causa distúrbios? Que desconfia de si própria e do outro?
    ... Não sei. Diz-me se souberes.

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  3. Play me again, Numenor. Seria interessante, não seria? Poderás viver sem me tocar? Poderás, mas não será a mesma coisa.

    Pede deferimento: A piano.

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  4. ARANHITA muito obrigado. :-)

    ANONIMO: Também não sei. Sou de letras. Era suposto saber? Diga-me se souber.

    A.Anes : está desafinada. Eu não afino, toco.

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  5. Também sou de letras, mas confesso alguns esforços em áreas menos próximas. Vou dizer-lhe: esperar que passe ou permaneça; e durante, descobrir que nada era. Nada mais a saber.

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  6. Anónimo estou perfeitamente elucidado: você é de letras. Quanto ao conteúdo das ditas, estamos conversados. Você entende-se e basta. Eu não. :-)

    Mas alguma coisa deve querer dizer.

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