Como se tornara hábito nos últimos meses, lá estava ele comodamente instalado no seu ninho inundado de líquido e ternura.
Cruzou as pernas, espreguiçou-se tocando com a ponta dos dedos a parede da cavidade que o envolvia. A casa já dificilmente suportava o seu tamanho. Nem se apercebera como crescera desde que minúsculo ali se alojara.
Olhou em redor, ninguém. Mais uma vez não havia ninguém. Já começava a fartar-se daquele mundo solitário onde nem uma alminha lhe dizia bom dia, nem um parceiro para jogar uma cartada, nem um amigo para o acompanhar numa bebida gelada nos dias quentes. E bebida não faltava por ali. Tudo era fluido excepto aquele cordão, espesso, comprido, que o ligava sabe-se lá onde, mas que lhe era vital.
Hoje curiosamente o cordão incomodava-o. As paredes pareciam comprimir-se, apertavam-no como se o sufocassem. As águas agitavam-se como marés vivas em oceano tempestuoso E o pequeno-almoço não havia meio de chegar…
Vasculhou em redor. Nada. Procurou mais acima. Nada. Deitou-se mas continuava desconfortável e a fome apertava-lhe o estômago. Chuchou no dedo polegar, o mais gordinho da mão esquerda. Esticou os pés até sentir a resistência sólida da parede. A ondulação fê-lo balançar sem ponto de apoio seguro. Rebolou numa cambalhota desequilibrada e viu o seu ninho de pernas para o ar.
Repentinamente, a água escoou como se alguém tivesse aberto um ralo ou furado um balão. Mais rápido. Cada vez mais rápido. Alguém estava a roubar-lhe o seu mar. Alguém invadia o seu habitat. Quem se atrevia? Que queriam dali? Escorregou levemente e descobriu a pequena frecha. Espreitou. As paredes comprimiram-se fortemente como que a expulsá-lo da sua própria toca. O seu mundo tornou-se pequeno, ínfimo, insuportável. E a luz intensa que o fitava através da ruptura pareceu atraí-lo, puxá-lo, sugá-lo.
Expulsou-o. 11:00am ouviu-se algures do além num som rouco, desconhecido, aterrorizante.
Atordoado. Perturbado. Desnorteado. Assustado. Confuso.
Desalojado. Esfomeado. Agredido. Abriu a boca e deu liberdade aos pulmões para o mais sonoro protesto que alguma vez patenteou.
AAAHHH finalmente um pequeno-almoço! Diferente do habitual. Uma outra consistência. Um novo paladar. Num recipiente macio que lhe inundava a boca. Acalmou. Deliciou-se. E quando os dedos suaves lhe acariciaram ternamente a face, esboçou um projecto de sorriso, cerrou os olhos e permitiu-se adormecer. Aconchegado no seio que o alimentava, envolvido no olhar que o tranquilizava e nos lábios que carinhosamente pronunciavam filho (um dia muitos anos luz transcorridos, haveria de alcançar o significado...).
Talvez não seja assim tão mau este novo mundinho... - sonhou.
2 ( mil ) anos e tão actual, e tão vivo, e tão sentido. Reconhecido Lembrado. Dois ( mil ) anos a caminhar , a voar, entre estrelas e a a mergulhar em maresia - longa travessia - curto travesseiro, meu amor que foste o primeiro. Cometa escarlate a ver-me nascer, a testemunhar um destino que fora, enfim, cumprido. O de lançar um derradeiro grito. Ser viajante e músico, amante e ilusionista. Incendiar a tua cama. Incendiar várias camas contigo. Incendiar espigas amadurecidas, contra o teu corpo, tantas vidas. Nesta assim nasci, para sobrevoar flamejante a vida que me passa ao lado. E ignorar a que te foge, dia a dia. Porque foste a vida consentida e a viagem prometida, assim te escrevo amor. E recordo embrião. Na tua mão. Sempre.
O demónio que sou, foi menino.
Naked Snowman,
ResponderEliminarTu e a escrita. Amor, Paixão, Volúpia, Loucura insana que nos transporta a um Universo jamais sonhado.
As palavras nascem em ti de uma forma única. És único. Desenhas a ferro e fogo na nossa pele a história dos teus "Sentires", traço imperfeito de mais um Humano que procura a sua parte divina. Ou será uma Divindade que procura a sua parte profana?
Não sei o que é. Sei que é maravilhoso ler-te.
Enlaço-te e beijo-te, nessa homenagem, nessa ode à Vida onde a Morte espreita.
Adoro-te Menino nú!
Beijo escarlate,
Cheguei aqui pela mão da Stargazer... e ainda bem que vim... porque não se pode ficar indiferente à tua forma de escrever.
ResponderEliminarTudo de bom :)
Tal como a Orquidea vim parar aqui...
ResponderEliminarApenas em duas palavras: profundo e intenso!
Beijo
Lendo a Stargazer, cliquei e deparei-me com uma história fascinante.
ResponderEliminarObrigado.
:)
Meu Amor,
ResponderEliminarTudo neste Universo tem um α e Ω e lá chegaremos um dia ao sublime Ω, nós dois, em que não precisaremos de renascer mais em que atingiremos a perfeição (é essa a minha missão... e juro irei cumpri-la)... luto por isso todos os dias...
Escrita linda a tua, maravilhosa, como só tu, meu poeta amado sabes fazer nascer de ti, dos teus dedos, da tua mente sublime e intrincada, que só eu conheço bem, (sim, sabes que sim)... o que tinha a dizer mais já to disse, já to dei... com todo o meu amor, com toda a minha ternura...
Beijo Doce de Eterna Ternura Com Muito Amor*
A tua escrita é Única. Fiquei sem folêgo. Intensa.
ResponderEliminarAinda bem que nasceste. Apesar dos apesares. Fui e sou feliz mesmo assim na espera. Agoraque sei muitos e muitos parabens. Bj.
ResponderEliminarMy milky way, comporta-te como o demónio que sempre foste. Assim fazes-me deixar de ser o que sempre fui. E comovido, beijar-te. E dizer que te adoro. E ser contra-natura. E, e, e... Obrigado pela « honra ». Este comentário será publicado no teu canto. E és única também.
ResponderEliminarORQUIDEA SELVAGEM
ResponderEliminarMOI
DESEJO
Agradeço a passagem. Repitam-na. Já sei que vieram ( bem ) recomendadas. Quando alguém é egoísta a escrever - me, me, me de dedo no ar - é um conforto ter pessoas como vocês como.. receptoras, neste caso. Pragmático demais? ;-)
Bem vindas.. irei conhecer-vos.
ISIS , as escritas são únicas... todas... Também tu escreves com a alma. Basta isso para as tornar únicas. Beijos. Tenho que te ir visitar. :-) **
ResponderEliminarISABEAU, continuas a falar de um amor que eu não sei decifrar: passado, presente ou futuro? Sim, partilhámos um passado. Ambos temos um presente - cada um vivendo o seu e à sua maneira. Futuro, não existe.. porque faltou o presente para se poder falar de futuro. Deixemo-nos de gramáticas: Não deverias falar de futuros e vidas eternas quando o teu presente bem terreno será apenas consequência de uma opção do passado. Beijos.
MD ( ainda sorrindo ).. sim, nasci. 12-09. :-) Beijos, tender.
Já deverias saber que...
ResponderEliminarcerto, Naked Snowman?
:)
beijo de Supernova,